Precisamos Falar Sobre o Kevin

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Título Original: We need to talk about Kevin

Diretor: Lynne Ramsay

Ano: 2011

Avaliação: 10/10

Sobre a mente humana e sua complexidade

É um filme denso que faz você refletir sobre o que molda o caráter do ser humano. Seria o meio em que cresce, as pessoas que o cercam ou é algo inato?

Eva tem seu primeiro filho provindo de uma gravidez indesejada. Percebemos o incontentamento da personagem na cena logo após o parto em que o pai brinca com o bebê recém nascido e a mãe permanece inexpressiva, imóvel. Então começamos a acompanhar a saga dessa mãe que sofre pra cuidar de seu filho, beirando a insânia a cada cena em que vemos a criança fazendo escândalo e a mãe em situação psicológica e física extremas. Porém, quando é o pai que o pega no colo ele não chora. É a primeira cena em que eu refleti se havia algo relacionado ao fato de a mãe não desejá-lo e de certa forma o bebê sentir isso. Seria essa a justificativa pra tudo?

Eva se esforça pra criar uma relação com o filho que, por sua vez, demonstra total indiferença, chegando a passar por avaliações médicas para saber se havia algo de errado com ele. Não, ele é saudável (fisicamente). Ponto de reflexão número dois: é certo que Kevin possui uma personalidade forte, mas é possível que essa aversão à figura materna tenha sido construída com apenas poucos anos de idade ou há, de fato, algo de errado com Kevin?
Ela continua forçando-se a amar o filho, algo que claramente demanda muito esforço e a relação entre eles é cada vez mais deturpada. Kevin não possui limites e as respostas de Eva são violentas, física e verbalmente. Percebemos então que Kevin é manipulador. Ainda bem pequeno ele mente para o pai, acobertando o comportamento errôneo da mãe para usar esse trunfo posteriormente a seu favor. Reflexão número três: o comportamento de Kevin seria, então, justificável pela falta de limites impostas pelos pais?

Eva engravida novamente, dessa vez de uma menina.
Anos depois, já na adolescência, a relação com a irmã mais nova é abusiva. Kevin a maltrata pois notoriamente não gosta dela, chegando a fazê-la perder um de seus olhos.
Ele se tornou uma pessoa calculista, que consegue o que quer contando com a ação previsível dos outros. A personalidade de Kevin é dissimulada.

A relação dele com Franklin – seu pai – durante todo o filme é meramente supérflua. Franklin é totalmente relapso diante do comportamento do filho, fazendo com que o peso da repreensão caia laboriosamente sobre os ombros de Eva. Não há muito o que discorrer sobre Franklin, pois ele não é, nem nunca foi importante pro Kevin.

Entre os flashbacks que vemos durante todo o filme fica explícito que Eva é hostilizada socialmente, mas não sabemos o porquê. A expressão dela é de uma mulher infeliz, esgotada e que apenas existe – ela já não vive mais.

O grande acontecimento do filme é quando Kevin mata seu pai, sua irmã e seus colegas de escola. Reflexão número quatro: por quê deixou somente a mãe viva? Foi justamente porque queria vê-la sofrer, ou no fundo, porque ainda estava clamando o amor que ela nunca deu pra ele?

Nesse ponto eu me questionava se as atitudes de Kevin eram puramente más ou se era a forma deformada dele de chamar atenção da mãe, pois eu me via obrigada a procurar uma justificativa pras ações dele.

There’s no point, that’s the point.

– Kevin (We Need To Talk About Kevin)

No final Kevin acaba preso e a última cena é a de Eva abraçando-o como se fosse seu menininho em seus braços, pela primeira vez.

A cor vermelha é bastante explorada e tem a proposta de te incomodar, você deve estar desconfortável desde o começo do filme. Há cenas maravilhosas que enquadram Eva, os cenários funcionam como uma moldura que a deixam isolada de todo o resto, fazendo com que seus sentimentos estejam em foco e sejam compartilhados pelo espectador.
Precisamos falar sobre o Kevin, ao meu ver, tem o intuito de trazer uma discussão sobre o comportamento e os sentimentos do ser humano. Não basta acobertar e inventar desculpas. Precisamos indagar, ir a fundo. Precisamos falar sobre.

3 comentários sobre “Precisamos Falar Sobre o Kevin

  1. Andrew Ruiz disse:

    Interessante a pergunta com o qual você inicia o texto, perfeita para falar sobre este filme. Essa pergunta gera muita discussão e dependendo da pessoa vai dar uma resposta diferente. Notei que você se posicionou de forma bem imparcial, isso é bom para não não dar respostas equivocadas.

    Faz um tempo que vi esse filme, estranhamente não lembrava que a gravidez do Kevin foi indesejada, isso dá um peso maior ainda para a história

    Bem observado quanto a cor vermelha, é bastante usada mesmo, perfeita para mostrar a violência dentra do Kevin e anunciando o que está por vir. Lembro que o amarelo é bastante usado também, acho que parar comunicar atenção/cuidado com um perigo iminente…

    Você escreve muito bem por sinal, parabéns! 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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